quinta-feira, 19 de maio de 2016

Aos que virão depois de nós


Bertold Brecht
Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, 
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença. 
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, 
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranquilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado. 
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe! 
Fica feliz por teres o que tens! 
Mas como é que posso comer e beber, 
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? 
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? 
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: 
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; 
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. 
Sabedoria é isso! 
Mas eu não consigo agir assim. 
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem, 
Quando a fome reinava. 
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles. 
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra. 
Eu comi o meu pão no meio das batalhas, 
Deitei-me entre os assassinos para dormir, 
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza. 
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem, 
Quando falarem das nossas fraquezas, 
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes, 
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados! 
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos: 
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos! 
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca! 
Infelizmente, nós, 
Que queríamos preparar o caminho para a amizade, 
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. 
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem, 
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Os Satyros - Presença

Final de semana foi Satyrico, envolvida que estou com minha pesquisa sobre a produção de presença no teatro contemporâneo e o estudo das fotografias publicadas pela Cia Os Satyros no Instagram. Assisti seguidamente à ultima apresentação de Filosofia na Alcova e, no dia seguinte, à Juliette e depois à Justine. Trabalho corporal irretocável de todo o elenco (dentre as muitas coisas que cabem dizer sobre as produções e a direção presente de Rodolfo García Vázquez). Agora debruço-me sobre um artigo que escrevo já há alguns dias sobre uma fotografia de Phedra na Filosofia. Que força e que presença. E vem a notícia da passagem de Silvanah. Não a conheci, nem a vi atuar. Mas sei de sua importância para a história que pesquiso. Ainda não estava falando publicamente da minha pesquisa. Mas pego-me envolvida emocionalmente com meu objeto. Será positivo ou negativo? Como pesquisadora tenho tentado observar a distância. Será possível? Só sei que sinto. E sinto muito.


Foto: print feito através do meu smartphone do perfil @ossatyros no aplicativo Instagram

segunda-feira, 21 de março de 2016

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Montevideo

Uma viagem de lua de mel.


Dia 30 de julho de 2015 embarcamos, Paulo e Eu para Montevideo, capital do Uruguai.
Cidade linda, com o uma arquitetura fantástica que soube unir o velho e o novo sem agredir aos olhos.
Uma gente séria, mas muito hospitaleira. Muito interessante estar em um lugar onde não existe jeitinho. Tudo é o que é...
A viagem foi o presente de casamento dos nosso padrinhos e manos Thaísa e Octávio.
Conhecemos pessoas incríveis e tivemos experiências únicas.
Muita saudade e uma vontade de voltar em breve.



Av. 18 de Julho - muita chuva, mas maravilhoso andar a pé pela cidade.










La puerta de la Ciudadela


Teatro Del Solis


Achei luz num dia chuvoso.

Caminhar nas ruas da Cidade Velha é bom, mesmo com chuva

 Museu do Romantismo










 Artista uruguaio tocando Bossa Nova

Pôr do sol fantástico no pier entre as hamblas e o porto



















As melhores comidas estavam nos restaurantes mais simples. Aqui uma massa que encontramos durante uma caminhada.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Romeu e Julieta

Cena de abertura

Dia 23 de agosto de 2015, os alunos do Teatro Escola Mário Pérsico apresentaram montagem de Romeu e Julieta, um dos maiores clássicos do dramaturgo inglês William Shakespeare. O trabalho fez parte do Módulo Prática de Montagem da escola.

Falar desse trabalho me traz muita satisfação, como professora e como diretora. Pude ver esses alunos, em sua maioria adolescentes subindo ao palco pela primeira vez, a chama viva da arte. Aquilo que nos move a buscar entender o ser humano e a sociedade em que vivemos.

Dedicação e superação foram palavras chaves nos meses de trabalho, ensaio, leituras, broncas. Mas no fim, tenho certeza que valeu a pena. Ainda vale a pena sonhar. ainda vale a pena viver.



Camarim
Laquê

Diretora



Últimos acertos


Coxia














terça-feira, 1 de julho de 2014

desafio 365





Hoje comecei meu desafio de leitura. Durante os próximos 365 dias me comprometi a ler um texto dramatúrgico por dia. A começar por hoje.

Ontem fiquei um tempo pensando em qual texto começaria o desafio. E sempre me vinha na cabeça: Édipo. Decidi primeiro identificar tudo que tenho em casa. surpreendeu-me querer reler tanta coisa, e mais ainda quanta coisa eu ainda não li. Me senti até meio mal.

No meio da papelada achei uma relação de títulos, que ocupavam três folhas. No alto da primeira estava escrito assim:

"RELAÇÃO DE TEXTOS - SUGESTÃO DE LEITURA E CONHECIMENTO MÍNIMO INDISPENSÁVEIS PARA ALUNOS DE DRAMATURGIA E DIREÇÃO."

Para minha surpresa, no fina da lista tinha um aviso:

"AVISO: esta relação é, evidentemente, incompleta. É uma sugestão do diretor José Renato e deve ser incrementada pelo interesse de cada um."

Acho que tem mais gente me ajudando no desafio. Ô, Zé. Pode ter certeza que sua lista será incrementada nestes 365 dias. Então, resolvi começar com o primeiro título relacionado pelo mestre José Renato, que nas poucas e valorosas vezes que nos encontramos, tanto ensinou. É a você que dedico este primeiro dia de desafio 365.

Édipo Rei
Sófocles





Acompanhe o desafio 365 em
https://www.facebook.com/desafio365vidaarte

E leia citações dos livros no @vanessafrisso #desafio365

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Numa certa Rua São João

Sou suburbano sim.
Aprendi poesia concreta com as passistas do morro.
Exercitando a alma, ladeira acima, depois da lage, quando o corte cruel do cerol faz a cor da seda voar solta no azul.
Fui surpreendido com a goiaba na mão.
Chorava o passo duro e fugia para ouvir canções no abacateiro.
Uma escadaria, um muro, uma queda. Foi assim que aprendi a caminhar. Sorrindo do salto quebrado que tirava todo glamour do vestido.
Sou da rua e lá já fui palhaço e dancei com uma rosa na boca.
Trago na boca sempre um palavrão, esperando só a primeira ordem para ser cuspido.
Falo alto, rio alto. Chorava só escondido.
Aprendi ainda pequeno os prazeres de um bom trago. Foi assim que beijei e também assim que fumei.
Quebra-queixo, mariola, picolé de milho verde. E aquela batata fatiada com casca e tudo. Comer panqueca.
Ali eu vi o mar nos olhos, as estrelas no chão e o cinza no céu, quando um véu de fumaça escureceu a frente da casa.
Aprendi a ser gente que briga com gente, que brinca com gente, que canta e dança com gente, que morre com gente, que ama...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Clichê Literário


Cheguei eufórica de uma caminhada de nove horas por uma trilha, de onde você praticamente não vê sinal humano, cercada de água e com cachoeiras, piscinas naturais, hidromassagem, tudo talhado nas lajes marginais. Ainda por cima, ao final dessa jornada, fomos premiados com um mergulho na represa de Itupararanga. Cheguei em casa, atualizando com a internet, a notícia, que não era uma, Eduardo Coutinho, morre aos 80, esfaqueado, talvez pelo filho esquizofrênico, Philip Saymour Hoffman, encontrado morto aos 46, de overdose de heroína. Fiquei meio mal. Não gosto de mortes. Principalmente mortes de pessoas que eu admire, tenham alguma ligação com minha vida ou não. Isso confundiu minha cabeça.

Apesar da noite quase em claro, e da surra que eu parecia que levara, estava inquieta. Acendi um incenso e fiquei olhando minha estante de livros. No mesmo momento minha mente começou a enquadrá-las, mas pensei que livros não pedem imagens, e sim palavras.

Sou uma boa leitora, pelo menos me considero assim. Não, eu não leio até bula de remédio, mas rótulo de xampu sim, devo confessar. Adoro ler biografias, romances, clássicos, bobagens comerciais, livros de teatro, e variadas áreas do conhecimento que me façam entender quem eu sou e quais são as coisas que tanto me inquietam. Todo resto é bobagem. Não me levem a mal, estou falando de mim. Mas se alguma carapuça fez saci...

Essa busca por mim mesma me faz mergulhar na arte, tentar entendê-la, sentir a estética, mais que vê-la. Entenda aqui arte no sentido mais genérico do que conceitual. É buscar o que me encanta. Por isso escrevo histórias, na esperança antiga de queimar o negativo. Por isso enceno papéis, disfarçando diferenças, acentuando semelhanças.

Assim é minha relação com os livros, uma busca de entendimento, mesmo que nem tanto racional. Emocional talvez. Estou sempre lendo alguma coisa. Por vezes chego a ler até quatro livros de uma só vez. Isso explica o porquê de ler alguns em dois dias e outros em um ano. Vão complementando-se e opondo-se, de acordo com minhas necessidades. E existem aqueles que param no caminho.

E foram esses que me chamaram a atenção desta feita. Por que eles ficaram no caminho, ou eu que fiquei. Algumas vezes os reencontramos tempos depois. Por outras vezes juramos que ainda terminamos. Outros simplesmente deixamos em silêncio. Será que existe alguma coisa em comum entre eles, ou será que de alguma forma eles me expunham de maneira a me incomodar? Resolvi rememorar alguns. Vai que faz sentido.

Talvez vocês pensem, “Ah! Ela agora entrou na modinha de fazer listas”, “Os 294 livros que não terminei de ler”. Vai ver que foi isso mesmo. A mim mais parece que é também só uma procura, daquelas em busca de algo em si.

Quando eu tinha uns dez anos de idade, comecei a ler Macunaíma, de Mário de Andrade. Confesso que achei muito difícil entender algumas coisas. Acho que na época era mais fácil eu entender de mitologia grega, que eu começara a conhecer. Talvez algum tabu da criação. Nos encontramos depois, bem depois, quatorze anos depois, foi paixão fulminante, dessas que se tem aos vinte e poucos anos.

O primeiro livro de Gabriel Garcia Marques que comecei a ler foi O Outono do Patriarca. Períodos muito longos cansavam-me, parágrafos inteiros sem pontuação, num fôlego só. Ali na frente eu já não sabia onde estava. E cada vez que pegava o livro pra ler, quase que começava do zero novamente. Dei de ombros. Não me dei muito bem com Garcia Marques. Até que Memórias de Minhas Putas Tristes me caiu às mãos. Engoli o livro. E fui correndo conseguir um exemplar de Cem Anos de Solidão. Sim, eu e Gabriel fizemos as pazes, e tornamo-nos melhores amigos. E O Outono do Patriarca? Acho que emprestei pra alguém, não está aqui na estante, logo agora que eu queria lê-lo.

Durante um curso de interpretação, minha turma iria fazer uma montagem de O Homem do Princípio ao Fim, do Millôr Fernandes, a mim coube o monólogo de Molly Bloom, do já lendário “não lido” Ulisses de James Joyce. Eu não fazia ideia de quem era Molly Bloom. Achei que precisava ler o livro. Paulinho achou um exemplar incrível, capa dura, em um sebo na Augusta. Presentão de Aniversário. Aí fiquei sabendo que muita gente não consegue terminar de ler esse livro. Mas não acho que parei só para fazer parte dessa estatística.

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, me deu inspiração para o título de uma peça em um ato que escrevi, e nem cheguei em Através do Espelho. Lewis Carroll me desculpe, não tem nada com aversão às suas supostas taras. Peças de tetro gosto de ler sem interrupções, pa-bum, de uma vez! Mas emperrei em O Diabo e o Bom Deus, do Sartre. Em Fausto, de Goethe. Até hoje reabro o meu bom e velho Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. Mas vou continuar tentando, Senhor Berman, estou quase lá, chegando no fim, há quase vinte anos.


Agora aqui estou eu e Umberto Eco. Umberto Eco e eu. Pela terceira vez. O Nome da Rosa e as referências que não tive.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De cara com a 101

Eu não vi a cara da morte. Mas pude senti-la. Ela estava ali, esperando, espreitando, acompanhando a BR101. A qualquer momento pode acontecer, vai acontecer. Então ela fica alerta, sentindo o cheiro e observando as cores.

Ontem estava escuro. Só rastros de luzes brancas e vermelhas e um rastro de verde que vez por outra se ilumina. Os olhos vidrados nas páginas do livro. Os sentidos assombrados e imersos nas letras impressas.
Uma luz branca vindo em nossa direção, um vulto de carro passando a nossa direita, o solavanco, o caminhão na outra pista vindo de frente, o segundo solavanco, o livro que voa, o acostamento, e horas em espera.

Nenhum ferido, só um susto dessa vez, minha senhora, pode ir. E ela, que nada, melhor ficar de olho nessa via. Paramos, esperamos. O motorista tremia que nem vara verde, mas seu reflexo foi perfeito. Os moleques, de bermuda, regata e chinelos, possivelmente achando tudo muito divertido, ultrapassando um caminhão nas curvas de Iconha. Uns sortudos, é o que eles são, de terem ido só parar no meio do mato.
Nada demais, esperar por duas horas pela polícia, mais duas pela perícia, e seguir viagem até São Paulo. Cinco horas além do previsto. Cinco horas a mais na tortura do medo de continuar no mesmo veículo. Foi uma raspada de lado, feriu a dianteira direita. Eu me pergunto: até quando?

A 101 continua ali, com suas curvas, seu asfalto de péssima qualidade, sua pista estreita e certos condutores assassinos irresponsáveis. Não, não é culpa deles, a responsabilidade é só do governo... O que a grande maioria de nós esquece é que todo ato feito em comunidade é um ato político, não diz respeito só à nossa idiossincrasia.

E sabe o que a dona Morte nos diria se pudesse?


- Os seres humanos me assombram.



O Grito, de Edvard Munch, não me lembra a cara da Morte, 
mas a cara da Solidão, aquela cujo egoismo afastou da vida.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

MOBILIÁRIOS

Mobiliário definitivo de memória. Memória transeunte na cidade, memória gravada na carne. Ectoplasma.

Mobiliário, aquilo que se relaciona a bens móveis. Um bem, um móvel. Motes para o estudo cênico do Coletivo Cartão de Memória, núcleo formado por artistas das mais diversas áreas interessados em investigar a memória. De que forma? Ainda estamos descobrindo. Falo aqui da minha experiência pessoal, talvez comum a outros membros do Coletivo. Talvez díspares.

Em 2012 ingressei na SP Escola de Teatro cursando Direção. Um grande desafio, diante de situações de minha vida privada, meus 37 anos de idade, o horário das aulas e a dedicação necessária para um bom aproveitamento. Depois de mais de 20 anos de vida teatral, na qual busquei construir meu embasamento teórico através da experimentação e de uma leitura voraz, mas não conduzida. Não tinha a definição de experimento cênico que tenho hoje. Possuía uma prática, nem sempre eficiente, porém contundente. A escola significava a possibilidade de suprir essa deficiência.

Módulo Azul, que na SPET quer dizer Teatro performativo. Alguma coisa que nem os formadores possuíam claramente uma definição consensual, talvez por ser um fazer cênico até certo ponto recente, uma história que ainda está sendo escrita.



Fui descobrindo a partir da pesquisa teórica que já degustara esse novo fazer teatral. Nunca fui afeita a rótulos. Estes são limitadores. Os conceitos devem ser expandidos, modulados a cada experiência. Assim sendo, busquei esquecer o conceito de performativo, passando à investigação, sem juízo de valor e tentando esvaziar-me de ideias pré-conceituadas.

A partir de uma proposta artístico/estética dos aprendizes das áreas de cenografia e figurino, sonoplastia, iluminação e técnicas de palco, passamos a investigar o espaço montado nasala 34 do edifício da Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, onde funciona parte dos trabalhos da SP. Sal, linhas, cores, sons metálicos, inspirados no trabalho de Lúcia Koch e Peter Greenaway. Junte-se a isso atores disponíveis e destemidos, uma dramaturgia ativa, e a encenação foi tomando uma corpo, definida sensorialmente e não conceitualmente – processo seguido até o momento pelo Coletivo.

O mesmo sal que queima a pele, tempera a comida, conserva a memória. Dor, cheiros, marcas e incômodos transformados na pergunta: “como performar a memória?” Experimentamos, não respondemos. E a resposta, sinceramente, é o que menos importou. A tentativa de definir que memória é essa que desejamos performar leva ao questionamento de o que é memória? Nunca foi base do trabalho tentar responder esta questão, mas vivenciá-la da maneira mais instintiva possível.

A memória afetiva e pessoal, através de objetos disparadores, trouxe histórias da vida pessoal de cada um ali presente, misturadas a mitologias ligadas a memória. As moiras cegas, as estátuas de sal, a mulher de Lot, o envolvimento do público. Fomos acusados de melodramáticos, catárticos, psicodramáticos. Todavia, a inquietação dessa busca não foi ultrapassada.

Longe de casa e da família, quem era eu em São Paulo, buscando mais uma vez responder, de onde vim, para onde vou? Inquietação mais banal e coloquial da humanidade, beirando um clichê, mas que me atormentava deveras o pensamento e a alma. E quem disse que não podemos ou devemos transferir para a arte nossos tormentos pessoais? Apesar da encenação dividida, havia uma simbiose com meu parceiro de direção (o diretor Cristiano Dantas, que não participa do Cartão de Memória) que facilitava e enriquecia o processo.Não havia um texto a investigar, buscar um conceito para então dar nossa versão. Ao contrário, partimos da investigação para a construção da dramaturgia e posteriormente da encenação, subvertendo a ordem conceito – forma. Particularmente, coloquei-me no lugar de costureira, que monta uma colcha de retalhos mesclando tecidos doados e bordados criados com pontos e linhas de cores diversos. Utilizando a história dos outros para falar de mim, das minhas inquietações.




Assim a encenação foi construída, através de sequências de workshops e procedimentos. Ao final do semestre e a mercê das críticas, consegui falar do que queria, do modo que queria. Afinal, como artista, estou falando de mim, do meu olhar sobre as coisas. Sem certo ou errado, é o meu olhar.

Porém, essa investigação da memória parecia querer levar-nos mais adiante. Finda a escola, parte do grupo sentiu o desejo e a necessidade de continuar a pesquisa, ainda pessoal, só que nesse momento re-significada na cidade de São Paulo.



Uma das questões que mais tocam o trabalho de encenação é a construção da identidade. “A psicanálise enfatiza eu tudo quanto de fato impressionou nossa mente jamais é esquecido, mesmo que permaneça muito tempo na obscuridade do inconsciente. Essa constatação evidencia a importância da memória para vida”, afirma Maria Helena Martins, em seu livro O Que é Leitura (Coleção Primeiros Passos, Braziliense), acrescentando ainda que poderíamos perceber o esquecimento como mecanismo de defesa.

Para o estudo cênico Mobiliários I, seguimos o mesmo processo da sala 34. Workshops que geraram procedimentos cênicos, dentro de uma loja de móveis antigos, com objetos cheios de história. Ali era possível mesclar as histórias pessoais com as histórias observadas nos objetos. Eram marcas a serem memoradas. Bruno Matos, em seu artigo Rituais de Desacelaração, afirma que é preciso reconhecer que “não é possível dar conta de todas as coisas, e que precisamos fazer escolhas se quisermos ter experiências mais profundas e intensas – experiências mais fáceis de serem lembradas”.

Buscamos construir narrativas baseadas na memória individual inter-relacionada com a memória coletiva, a partir da relação com o espaço e com o público.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cartão de Memória abre temporada de Mobiliários no espaço cultural Walden

Depois de concluir a primeira fase de pesquisa e de uma série de experimentações, o Coletivo Cartão de Memória abre no próximo dia 14 de setembro a primeira temporada do espetáculo Mobiliários. A peça, composta de quatro cenas, foi desenvolvida a partir de estudos sobre objetos presentes em uma loja de móveis da avenida São João, em frente ao famigerado Minhocão. Ao falar sobre os objetos, o espetáculo reflete também sobre as mazelas da metrópole e a ação do tempo sobre espaços urbanos, pessoas e objetos. Como é a proposta do grupo, as cenas são moduladas conforme o espaço em que são apresentadas e situações do momento do espetáculo, em um misto de teatro e performance.


O experimento Mobiliários é composto por módulos de pesquisas que relacionam memória, cidade, objetos e indivíduo. Cada uma das fases envolve uma linha de reflexão sobre o tema, que resulta na criação de quatro cenas.


A temporada será sempre aos sábados e se estenderá até o dia 26 de outubro. Em setembro, as apresentações serão as 21h e, em outubro, 22h.


Serviço:
Temporada de 14 de setembro a 26 de outubro de 2013
Setembro aos sábados, 21h
Outubro aos sábados, 22h
40 min

Local: Espaço Cultural Walden - Praça da República, 119
Ingresso: R$ 10,00

Ficha Técnica:

Direção geral: Vanessa Frisso
Dramaturgia e Ass. De Direção: João de Freitas
Elenco: Ariane Alves/ Mayra Bertazzoni, Lucas França, Sandra Vilchez e Valmir Martins
Sonoplastia: Cauê Andreassa e Yara Cruz
Iluminação: Thatiana Moraes
Direção de Arte: Angelica Andrade e Cristiane Amorim
Produção: Carlos Augusto Rodrigues e Cristiane Amorim
Fotografia: Ma Martins
Divulgação: Leonardo Fuhrmann

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Coral Fundec 2013 - Sorocaba

A música tem um poder sobre o corpo humano. Na mente, na audição, no tato, na pele. São ondas sonoras que invadem a alma. Minha vida sempre foi tomada de música. Já fui mais exigente, confesso que o tempo me levou pré-conceitos, me tornou mais eclética e me permitiu diferenciar diversão de arte.

Mas a boa música ainda tem o lugar de protagonista no meu mundo, inspirando textos, roteiros e expressões. Nunca tive muito talento musical, muito devido a um desvio nas cordas vocais, mas o trabalho teatral, aulas de fono e principalmente brincadeiras familiares me ajudaram a melhorar um pouco nesse quesito. Em casa temos o costume de pegar o violão (não eu, o Paulo, é claro) e cantarolarmos músicas queridas. Estamos numa fase Robertão, o velho e bom rei da Jovem Guarda. Cantar com o Paulo me encanta. E esse post é pra ele.

Aqui trago dois vídeos do Coral da Fundec, em Sorocaba, que se apresentou em Junho desse ano. Paulo Coelho, não o escritor, o meu companheiro amado, participa desse coral. Foi emocionante  assistir.

O primeiro vídeo traz o Laudate Dominum, de Mozart. A obra foi inspirada no Salmo 116. Vários compositores também musicaram este salmo, como Vivaldi e Byrd, mas a versão de Wolfgang Amadeus Mozart é a mais conhecida e a que mais me emociona.




Laudate Dominum omnes gentes

Laudate eum, omnes populi.
Quoniam confirmata est
Super nos misericordia ejus,
Et veritas Domini manet in aeternum.
Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto.
Sicut erat in principio, et nunc, et semper.
Et in saecula saeculorum. Amen.

O grupo também apresentou Roda Viva, de Chico Buarque e Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes, com o perfeito Soneto de Fidelidade. Prestem atenção na declamação do soneto...  


Parabéns Paulo! Parabéns Coral Fundec!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Brilha, Regininha!

Regina, rainha - Foto de Bruna Guanandi Tiveron


A vida não é feita de lamentos, é feita de momentos. Feliz é aquele que tem momentos marcantes a serem memorados. Fecho os olhos e o que vem à minha mente é uma só imagem: a morena dos cabelos encaracolados, o sorrisão franco, parecendo um colar de pérolas, o corpo sensual e a alegria contagiante. Toda mulher, mas por dentro uma menina, meninota, moleca.

Amiga que veio pela banda. A irmã que a vida escolheu pra mim. Não tem o sangue, mas tem a cumplicidade intrínseca que parece explicar o mistério da reencarnação. Amiga que tomou conta de mim num dos primeiros porres, que ficou do meu lado num dos maiores mal entendidos. Que ria da minha ingenuidade curiosa. Ela, que grávida botava um top e uma calça pijama e era a mais linda da festa, com o barrigão de fora. Quantas noites em claro conversando e dando risada, só nós duas, depois das crianças dormirem. Era uma taça de vinho e um cigarrinho na mão, que ninguém é de ferro.

E se não íamos fazer churrasco na piscina, o que fazíamos quase todo final de semana, muitas vezes no meio da semana também, íamos pra cozinha. Mais conversa, que nem sei de onde vinha tanto assunto, mas vinha e multiplicava. Sem pressa, tinha dias que o almoço saía lá pelas cinco da tarde. Putchero, caranguejo, carne de panela, sopas e caldos, e o sururu melhor do mundo. Viagem a Paraty, idas muitas para Carapebus. Reunião das cinco, sim éramos quatro, ela era o quinto elemento. Elemento fundamental. Mas a maior parte do tempo éramos eu e ela. Pra ela eu não tinha vergonha de falar nada. Com ninguém eu fui mais eu. Até na ficção não nos separávamos, melete que rima com Salete!

A vida é feita desses momentos. Mas tenho um lamento. Ah, minha amiga, minha irmã. Como eu lamento não ter ficado contigo nesses dias. Como eu lamento não poder estar agora abraçando os seus que são muito meus, e que também amo demais. A vida me trouxe pra longe nos últimos anos. Mas nunca nos afastou. Só não lamento ter te conhecido, passado todo o tempo que passamos juntas. Não lamento te amar tanto.


Vai, Regininha, sobe como anjo que sempre foi. Passeia no jardim das borboletas e de flores multicoloridas. Brilha qual estrela bailando no céu. Para nós, sempre ficará seu sorriso, seu amor, sua alegria de viver. Deus é muito esperto, sabe bem o que faz. E deve ter lindos planos pra você aí.

terça-feira, 16 de julho de 2013

AMIGA INESTIMÁVEL

Amiga inestimável é difícil definir. A que faz bem só de estarmos perto. A fala doce, mesmo para repreender. Quando brava, assovia e quem a conhece já sabe que alguma coisa está errada. Quando conta histórias, a gente para pra ouvir e quando canta todos a sua volta choram. A amiga inestimável é a tradução do amor. O olhar mais doce que alguém poderia ter, mesmo que tenha acabado de acordar. O colo mais gostoso que experimentei.
Amiga inestimável, o significado do nome Antonia. Será que teria um significado melhor? Quem conhece dona Antonia Perim jura que não. Busquei pensar nessa mulher, me afastando da condição de neta, inspirada na imparcialidade jornalística - mas a tarefa é complicada - sua vida me inspira além do amor que sinto.
Pariu nove filhos, dos quais oito cresceram fortes, lhe dando netos e depois bisnetos. Mais um filho de criação. E mais muitos dos quais cuidou. A tia mais estimada, comadre, madrinha, prima. Hoje referência familiar de uma centena de vidas. Dizem que toda unanimidade é burra, mas também dizem que em toda regra há uma exceção. Em assim sendo, eis a exceção à regra, a unanimidade inteligente.
Com ela podemos entender o que é a fé. O que é o amor. O que é desapego. O velho Octavio dizia que ela tinha mania de dar tudo pro outros. E dá mesmo, frutas, mudas, presentes. Quando viajei com eles para Conceição da Barra, eu tinha 13 anos. O vovô toda noite me dava um dinheirinho pra sair, um lanche, um sorvete, mais que suficiente naquela idade. Mas ela pegava sempre um pouquinho a mais e me entregava escondido dele.
Eu adorava passar as férias na casa deles. Muita gente duvida que tenho memória da primeira infância, mas tenho sim. Certa vez fui com meus pais num final de semana. Pedi pra ficar mais, alguém iria para Vitória no meio da semana. E foi. Tinha outra carona na outra semana, e foi. E foram-se três meses (esses detalhes de tempo me contaram), e minha mãe teve que ir me buscar pessoalmente. Eu tinha três anos.
Tonha sempre conta do dia em que nasci. Ela me ouviu chorando e correu até o berço, meus olhinhos estavam pretos, ela assustada chegou mais perto e viu que eram formiguinhas, conta dando risada. Não devem ter me limpado direito depois que eu mamei, sei lá. Aos seis meses de idade, quando tive coqueluche, ela me pegava no colo às 5h da manhã e subia até o Petrópolis para eu respirar o arzinho da manhã, e me curou assim. Foi ela também que me ensinou a pescar piaba na cachoeira.
Mas ela não é sempre boazinha assim não. Já viu alguém levar um tombo na frente dela? Explode no ar uma risada gostosa, que parece não ter mais fim. Ah! Tonha malandrinha. Gosta muito dos bailes da terceira idade, e dos bingos, seja nas novenas, no clube ou na praça da igreja. Mas bingo lá é diferente. Cada um leva uma prenda e quem ganha depois tem que devolver o prato que foi com pudim. Quantos pudins.
Dizem que avó é mãe com açúcar. Ela tem açúcar, mel, garapa e cavaco. Aliás, na cozinha é outro fenômeno. Quem não provou a polenta da dona Antonia não comeu uma polenta italiana de verdade. Bolinho de arroz com abobrinha, bolinho vira-sozinho (bolinho de chuva). E mesmo não cozinhando mais, quando eu chego tem polenta com taioba. Uma vez ela fez uma massa caseira incrível. Pedi a receita e ela disse que é simples (mas nem citou os ingredientes, era obrigação minha saber), só fazer a massa e bater bem... Simples assim.

Simplicidade, esse deve ser o segredo da magia que dona Antonia exerce sobre todos que se aproximam. Quem chega aos noventa e dois anos com a serenidade e jovialidade de alma que ela tem, vira anjo e abençoa nossas vidas. Tonha querida, meu maior exemplo de mulher, de luz, de amor, de vida. Escrever suas histórias poderia render um livro. Mas falar dela é cair na redundância do amor.



*Foto: Lívia Batistine Friço